Quando todos já estavam cansados e bêbados, e aquela casa toda suja convidando todos para sair, havia um garoto rindo e conversando conosco, do meu lado. Na verdade, ele havia chegado apenas alguns instantes antes do fim. Ele segurando sua bicicleta, sóbrio, parecia indiferente, porém feliz.
Com todos até o final da rua fui seguindo, com uma certa dificuldade de locomoção resultada de uma felicidade patética que tenho alimentado por alguns anos, quase precisando de alguém para me segurar. As pessoas riem quando fico nesse estado, porque, afinal, sou um bêbado até que divertido.
Cada um para o seu canto, caminhos diferentes e possíveis paradas para fazer coisa errada, mas eu já na esquina quis saber se o bar estava aberto. Pra quê ir pra casa agora? Todos se foram.
Todos se foram, mas ele continuou do meu lado. Eu não sabia seu nome ainda. Tentei dizer algo: "e agora, como você vai emb..." e um beijo me interrompeu. Não, não foi simplesmente um beijo, afinal mais tocou em mim como um abraço e envolveu como se eu precisasse daquele equilíbrio.
- Por que você fez isso?
- Porque eu quis.
- Eu não sabia.
- Você acha que eu nunca faço?
- Então faça de novo.
- Não.
Dissemos mais algo irrelevante, talvez, e ele foi embora. E o bar estava fechado.
"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música."
Friedrich Nietzsche
quarta-feira, 23 de setembro de 2015
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015
Uma visita
Que o universo continue entendendo as minhas mensagens de paz. Que os sorrisos continuem sendo mais brandos e sinceros, que as saudações continuem sendo amigáveis. Quero acordar e dividir meu café, quero sentir o gosto dourado do próximo abraço, quero abrir a janela e dizer bom dia e ouvir o grilo dizer boa noite e me sentir envolvido pela brisa, meio com cheiro de chá ou qualquer coisa que você quiser.
terça-feira, 3 de fevereiro de 2015
Sete minutos
Preza-se pela saúde, preza-se pelo coração, preza-se pela flor que você carrega no estômago. Lembro bem do dia em que existia um espelho entre nós, e tudo se confundia ao passo que você praticamente me matava com os seus olhos. E sentindo o prazer daquela morte, e perdendo a noção do tempo, viam-se os dois como se fosse a coisa mais divertida do mundo, e sem sentido nenhum. A interpretação que eu tinha dos seus gestos estava me dando o significado mais nobre que eu já tive a sensação de conhecer. Não sei se era verdadeiro, mas era simplesmente bom. Pois muitas vezes as coisas na verdade não têm cor.
10/06/2014.
10/06/2014.
Inseparável sinestesia
O mundo está repleto de percepções através das quais vivemos. Bobagem!, eu ousaria dizer que não através, mas tudo o que vivemos são as próprias sensações de um mundo. Seu universo, meu amor, é uma teia de aranhas tecida de uma mistura estonteante de impressões, linhas, cores.
Cria-se uma parede ilusória onde se sustenta um quadro branco qualquer, no qual você toca com a ponta dos dedos e inevitavelmente os perfura, tingindo toda aquela brancura da tela virgem com uma cor alaranjada de sangue seco, que o tempo coagulou depois de anos e anos de prazer.
Debaixo dos seus pés já sofreu a areia poluída de uma praia qualquer, que esfoliava a pele com a felicidade mais imbecil possível de poder estar com tanta gente que um dia iria ter que deitar com as flores e deixar de fazer amor.
De dentro do violão tocado agora pelo garoto que você amava, sai um sorriso composto por dentes brancos e saudáveis que você tanto admirou e pensou que, um dia, iriam morder a tês branca de seu ombro enquanto ele tocasse o seu âmago, provocando-lhe a melhor dor do mundo.
A brasa que sua garganta sentiu ao respirar aquela fumaça com gosto de inseto pela primeira vez te fez tossir, e você tantas vezes repetiu que cada trago começou a lhe trazer mais lucidez, até se tornar um companheiro inseparável daquele líquido dourado que você tomou por anos e anos.
[...]
A vida é tão deliciosa quanto guardar aqueles insetos que brilham e soltá-los de noite.
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