Era um cenário branco que você criou. Não sei ainda qual era a cor dos seus olhos - vermelhos, às vezes. Mas o que era claro mesmo, não era seu pensamento. Nunca foi. Suas ideias eram exacerbadas de uma razão sem sentido, e o lucro nos seus objetivos resumiam-se ao combate verborrágico de seus argumentos, que mais vinham como tiros de uma eloquente metralhadora.
Claro em você, somente sua pele; e talvez o seu lençol que eu manchei com aquele seu cigarro intragável de baunilha. Não te respeito, nem desrespeito. Porém quando você me vem à mente através de suas interferências catastróficas, sinto como um milhão de agulhas estivessem fazendo uma obra de arte mortal no meu peito. Me dá, sim, saudade do sol frio entrando por aquele apartamento entediante, e de quando eu mesmo arrumava a "nossa" cama, agitando a colcha branca que quase não soltava poeira. E brilhava.
"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música."
Friedrich Nietzsche
terça-feira, 13 de maio de 2014
terça-feira, 6 de maio de 2014
Falsos conceitos
Eu não sei o que dizer sobre o amor (que tenho visto por aí). É sim sempre uma relação de troca, mas parece ser tanto interesse. Sempre um jogo de interesses. A correspondência é sim difícil. Porém o que eu digo é que os casais geralmente são formados não por uma necessidade que todos os seres humanos têm de amar e de se completarem, mas sim porque alguém está tendo alguma necessidade particular. Carência, tentativas de correção de decepções passadas, etc. Contudo, acredito que deveria ser uma busca muito mais natural.
Deveria ser uma busca que acontece pela necessidade de amor, não o amor pela necessidade de completar outros buracos que temos na vida. Não sei se é realmente um pensamento do Jô Soares, porque vi numa rede social: "A melhor maneira de ser feliz com alguém é aprender a ser feliz sozinho. Daí a companhia será questão de escolha e não de necessidade."
Até mesmo para mim, por muito tempo, confiei na mais bela porcaria de teoria de que amor não existe. E, sabe, nem deve existir mesmo. Quem é o ser humano para dizer que conseguiria sentir algo tão sublime? O fato mesmo é que não sabemos de nada: nem o tempo tem conceito e tem muita coisa que não cabe no dicionário.
Deveria ser uma busca que acontece pela necessidade de amor, não o amor pela necessidade de completar outros buracos que temos na vida. Não sei se é realmente um pensamento do Jô Soares, porque vi numa rede social: "A melhor maneira de ser feliz com alguém é aprender a ser feliz sozinho. Daí a companhia será questão de escolha e não de necessidade."
Até mesmo para mim, por muito tempo, confiei na mais bela porcaria de teoria de que amor não existe. E, sabe, nem deve existir mesmo. Quem é o ser humano para dizer que conseguiria sentir algo tão sublime? O fato mesmo é que não sabemos de nada: nem o tempo tem conceito e tem muita coisa que não cabe no dicionário.
Trinta minutos
Você acorda e apoia suas mãos sobre a pia gelada do banheiro - esse é o primeiro choque da vida. Dizem que durante seis segundos, ou sei lá quanto tempo, você não sabe nada, nem sobre sua própria existência. Deveria durar mais, ou deveria simplesmente existir um sol umas cinquenta vezes mais flamejante que brilhasse, não só no firmamento, mas dentro dos nossos olhos e boca e depois explodisse no coração e sangrasse numa hemorragia de sentimento verdadeiro. Mas já que nem a verdade não existe, olha-se para o espelho com a mais cafajeste obrigação. E começam as mais sórdidas comparações do universo.
Vê-se uma selva sem árvores, coberta de lama e sem flores, uma ruga perto dos olhos, e vem cheiro do café do vizinho. Passaram-se trinta minutos, e não há ninguém na sua cama, afinal, você levantou.
Vê-se uma selva sem árvores, coberta de lama e sem flores, uma ruga perto dos olhos, e vem cheiro do café do vizinho. Passaram-se trinta minutos, e não há ninguém na sua cama, afinal, você levantou.
segunda-feira, 5 de maio de 2014
Panic disorder
Eram duas horas da madrugada e o rapaz tinha ainda suas preocupações de (quase) sempre. Pensava assim que, se chegada a hora de trabalhar e não houvesse o sono, provavelmente não renderia o mesmo. Fechava os olhos e via dois faróis verdes. Seus dentes rangiam e sua mente flutuava dentre a fumaça das pessoas que nem mesmo ali estavam. Tanta densidade para pouca disposição. Mas que podia fazer ele se suava frio e via tanta gente em um lugar que nem ele mesmo sabia onde estava?
Finge de morto. Finge de vivo. É o que fazemos sempre. Fingir é o melhor remédio para aqueles que sempre pensam que o problema é só "coisa da sua cabeça". Caminhou até a cozinha e pegou um prato de porcelana, quando viu novamente dois faróis verdes.
Aí que sentiu o quão escorregadias as pessoas são. Pessoas são como fumaça, e quanto mais densas - contrariando o que aprendeu na escola - mais voláteis são. E um dia desaparecem. Seja pela morte, seja pela falta de vontade, de carinho, ou por pura inconsequência.
Sentiu deslizar pelos dedos suados a louça lisa e bem lavada. Quebrou-se e o som foi agradável, e teve sinestesicamente representada uma perda que já era presságio de muito tempo atrás.
Descalço, andou sobre os cacos, carimbou de laranja seu sono no chão quando caminhava para cama com os pés ensanguentados. Sentiu o lençol gelado, contou até três, parou de tremer e acordou às nove da manhã.
Finge de morto. Finge de vivo. É o que fazemos sempre. Fingir é o melhor remédio para aqueles que sempre pensam que o problema é só "coisa da sua cabeça". Caminhou até a cozinha e pegou um prato de porcelana, quando viu novamente dois faróis verdes.
Aí que sentiu o quão escorregadias as pessoas são. Pessoas são como fumaça, e quanto mais densas - contrariando o que aprendeu na escola - mais voláteis são. E um dia desaparecem. Seja pela morte, seja pela falta de vontade, de carinho, ou por pura inconsequência.
Sentiu deslizar pelos dedos suados a louça lisa e bem lavada. Quebrou-se e o som foi agradável, e teve sinestesicamente representada uma perda que já era presságio de muito tempo atrás.
Descalço, andou sobre os cacos, carimbou de laranja seu sono no chão quando caminhava para cama com os pés ensanguentados. Sentiu o lençol gelado, contou até três, parou de tremer e acordou às nove da manhã.
Perdida Flama
"Um vulto e nada. Um vulto não é nada. Um vulto é quando você aparece, diz que liga e não liga, tropa daqui e dali e finge que está a fim. Eucaliptos olorentos me emergiam num verde tão vivo como um pântano ao ermo quando eu lembrei do cheiro de erva que ficava preso à minha roupa quando te via. Camiseta branca, tão bem passada e aconchegante para depois tornar-se verde no aroma que você me apresentou. Pensou que eu já conhecia, mas me introduziu a isso. E depois, partiu. Não sei pra onde é esse onde em que você está, que mesmo estando no mesmo lugar em que eu te encontrava, nunca mais te vejo. Cabelos de fogo esses seus que não sei que ventos que bagunçam, olhos grandes que não sei por quem choram. Boca que não beijava: mordia, e bebia. Não rego mais a telha cheia de menta para não sentir o verde que me lembra você, não faço mais chá, não acendo um cigarro. Engulo canecas de café preto bem torrado como se este não tivesse sabor, porque o mistério das ervas em um bom chá não me saem da cabeça. Esse mundo verde.
Quando eu ouvi a sua voz, sabia que não queria me ver. Você quis me dizer um vá que não saiu da boca, você pensou em tentar me salvar de si mesma e disse o que não foi dito até hoje. Não disse, mas fingiu que sim. É como se seu medo em ser feliz já tivesse superado o meu, quando eu pensava que a loucura do seu coração era um furacão sem tempo pra terminar. E acaba sendo, pois eu posso ainda dizer que existo na sua vida. Nos olhos de outra criança."
Último fragmento, provavelmente de 2010, de um blog anterior que perdi por motivos de censura.
Quando eu ouvi a sua voz, sabia que não queria me ver. Você quis me dizer um vá que não saiu da boca, você pensou em tentar me salvar de si mesma e disse o que não foi dito até hoje. Não disse, mas fingiu que sim. É como se seu medo em ser feliz já tivesse superado o meu, quando eu pensava que a loucura do seu coração era um furacão sem tempo pra terminar. E acaba sendo, pois eu posso ainda dizer que existo na sua vida. Nos olhos de outra criança."
Último fragmento, provavelmente de 2010, de um blog anterior que perdi por motivos de censura.
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