"E aqueles que foram vistos dançando foram julgados insanos por aqueles que não podiam escutar a música."
Friedrich Nietzsche

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Panic disorder

Eram duas horas da madrugada e o rapaz tinha ainda suas preocupações de (quase) sempre. Pensava assim que, se chegada a hora de trabalhar e não houvesse o sono, provavelmente não renderia o mesmo. Fechava os olhos e via dois faróis verdes. Seus dentes rangiam e sua mente flutuava dentre a fumaça das pessoas que nem mesmo ali estavam. Tanta densidade para pouca disposição. Mas que podia fazer ele se suava frio e via tanta gente em um lugar que nem ele mesmo sabia onde estava?

Finge de morto. Finge de vivo. É o que fazemos sempre. Fingir é o melhor remédio para aqueles que sempre pensam que o problema é  só "coisa da sua cabeça". Caminhou até a cozinha e pegou um prato de porcelana, quando viu novamente dois faróis verdes.

Aí que sentiu o quão escorregadias as pessoas são. Pessoas são como fumaça, e quanto mais densas - contrariando o que aprendeu na escola - mais voláteis são. E um dia desaparecem. Seja pela morte, seja pela falta de vontade, de carinho, ou por pura inconsequência.

Sentiu deslizar pelos dedos suados a louça lisa e bem lavada. Quebrou-se e o som foi agradável, e teve sinestesicamente representada uma perda que já era presságio de muito tempo atrás.

Descalço, andou sobre os cacos, carimbou de laranja seu sono no chão quando caminhava para cama com os pés ensanguentados. Sentiu o lençol gelado, contou até três, parou de tremer e acordou às nove da manhã.

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