Gostava de entrar ali e ficar admirando algumas representações que foram feitas de amantes passados. Eram inúmeras estátuas espalhadas pelo salão cheio de folhas e cada uma carregava o seu mais nobre significado.
Por mais claro que por fora estivesse aquele jardim, do lado de dentro da estufa uma penumbra muito acolhedora reinava no ambiente, enquanto os meus passos lentos percorriam o local.
Dentre todas aquelas estátuas, passei anos admirando uma que deixava, por algum motivo, algo muito especial. Este era um rapaz bastante magro, que nada segurava em suas mãos, e usava uma camiseta extremamente simples. Tinha olhos grandes e um rosto que se confundia entre dezessete e dezenove anos. Às vezes eu levava uma taça de vinho, me inspirava e voltava com uma garrafa inteira só pra rir das babaquices que eu imaginava que poderiam acontecer caso você, não sei, voltasse a viver.
Depois de muito tempo te olhando, resolvi te esquecer dentre as outras peças, afinal, você não respondia e isso começou a te fazer igual a elas. Existe às vezes um apelo sentimental por estas estátuas que estão em nossas vidas, as quais guardamos em uma espécie de museu com seu mais profundo valor, e este apelo sentimental nos faz sentir como se isso as tornasse mais vivas.
Ainda que haja uma personificação da pedra, que é em si o resultado da obra, não se deve confiar a uma pedra o valor que um ser humano de verdade tem. No entanto, como a arte e o amor estão na verdade dentro de nós mesmos, depositamos um conteúdo monumental em pessoas que estão mais para objetos antigos - mas que, convenhamos, devemos, ou preferimos, mantê-las guardadas, ainda que estáticas, em nossos corações.
E ainda assim, depois de muito tempo te olhando, o que era pedra esboçou sorriso, carinho, atenção, passou a falar e a se movimentar, e resolveu sair da estufa. Resolvi apresentar a você o jardim, enquanto você pouco falava por ainda carregar sua personalidade de concreto misturada com as suas emoções. Você viu árvores bem mais frondosas pelo jardim externo, e as borboletas com asas bem mais claras e que viviam na luz não pousaram em você, já que estávamos sempre em movimento, ou rindo de algo conforme você se soltava.
Por fim, algo aconteceu e você retornou à estufa. Te ajudei pelo caminho e você pediu minha mão para te colocar em um pedestal mais alto do que o das outras estátuas. Subiu, solidificou-se, perdeu as expressões e ficou soberano com seu olhar duro e perdido por cima de toda a poeira daquele chão.
Já pensei em te quebrar, algumas vezes, para simplesmente não carregar mais a esperança de que você voltasse à vida, mas preferi deixar assim e sempre te visitar quando houvesse a dor da saudade do dia em que caminhamos por aquele jardim com o barro sob os nossos pés.
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